
A
VIRTUDE DA AMIZADE
A amizade pode ser a fonte mais segura de satisfação num mundo
instável, melhor do que o sexo, o dinheiro ou o poder. Os gregos valorizavam-na
acima do romance ou da reputação e davam-lhe lugar de honra no
panteão do amor.
A
amizade, "philia", amor fraterno, a afeição
que existe somente entre iguais, é, ao mesmo tempo,
o mais modesto e o mais vigoroso dos modos do amor.
Calma
como um papo ao cair da tarde, é suficientemente
forte para sobreviver aos ácidos do tempo.
E ao mesmo tempo que nos arrasta para as nossas profundezas emocionais, não
exige nenhum frenesi romântico. Nada de uivos à lua, nem explosões
de sentimentos contraditórios. Nenhum ciúme.
A
amizade cria homens e mulheres gentis. Não depende
de nada tão frágil como um rostinho bonito
ou de números exorbitantes numa conta bancária,
nem de nada tão irracional quanto a força
do sangue e do parentesco.
Baseia-se
no mais simples dos silogismos do coração:
eu gosto de você, você gosta de mim; portanto,
somos amigos. E embora não possamos imaginar uma
vida satisfatória sem o picante transbordamento
do amor sexual, ou sem os suaves encargos da família,
sabemos intuitivamente que, sem um amigo, a melhor das
vidas seria tão
solitária que não se poderia tolerar.
Nos
dias de hoje, entretanto, a amizade é uma espécie
em extinção. Não frutifica numa ecologia
social que acentua a velocidade, a preocupação
constante e a competição entre os homens.
Requer vagar.
Como
um bom uísque, ela precisa ser envelhecida na madeira,
macerada com paciência e longamente fermentada.
Nada
de intimidades instantâneas ou de encontros de uma
noite só.
A
cadência da amizade mede-se em ritmos que tem a extensão
de décadas. Uma amizade duradoura leva anos de semeadura,
tem que ser tratada em tempo de chuva e de seca e não
pode ser arrancada pela raiz.
A
amizade não quer saber de eficiência nem de
agendas. Toda ela consiste em estar juntos ao pé de
uma cerveja gelada num bar, ou em lançar iscas na
correnteza de um rio.
Consiste em estar lá para ouvir e ajudar quando a vida do amigo parece
vir abaixo.
(Do
livro "O HOMEM NA SUA PLENITUDE " de Sam Keen)
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