|
No dia 29 de abril de 1934. Nesse dia que era a data comemorativa do aniversário do Imperador do Japão, coincidentemente iniciou-se a triste experiência da minha vida como imigrante. Era como se fosse a abertura do primeiro ato de um representação. Já antes da viagem, em tres anos consecutivos perdi as duas irmãs mais novas e a minha mãe. Meu pai que ficou numa profunda tristeza decidiu abandonar o trabalho que não ia bem e realizar o projeto de imigração, com vistas à recuperação. Casou-se novamente e após concluir as formalidades para a imigração partiu com a família para o Brasil. Chegando em Santos fomos levados às terras da linha Mogiana, onde nos estabelecemos. Nem se passaram seis meses, meu pai e meu irmão mais novo ficaram acamados, acometidos por uma doença endêmica. Minha madrasta que estava grávida na época, passava diuturnamente cuidando dos dois doentes e eu com quinze ano de idade trabalhava na lavoura. Com a ajuda do meu irmão de doze anos assumi a responsabilidade de um empreitada. Era angustiante trabalhar durante o dia na lavoura, dedicando-me totalmente e ao chegar em casa encontrar os dois doentes, sem ter mesmo a possiblidade financeira de levá-los a um médico. Logo ao chegar ao Brasil já sentia frustração e desilusão. Num ambiente sombrio como esse nasceu a minha irmã e logo em seguida faleceu um dos meus irmãos. Meu pai também veio a falecer e assim em menos de um ano duas pessoas da família foram sepultadas no Brasil. Como a vida entre nós que ficamos não era sempre agradável, a madrasta resolveu casar-se novamente, levando consigo o filho do primeiro casamento e a filha que acabara de nascer. Restamos somente eu e o meu irmão. Rememorando o passado, chegamos ao Brasil trazendo nas costas a triste sorte e agora ficamos nessa situação de infortúnio como se tivéssemos sido abondonados no campo deserto de uma terra desconhecida. Por uma necessidade imediata fomos contratados por uma família conhecida de japoneses, para trabalharmos na lavoura durante dois anos. Guardamos todo o salário ganho nesse período e com esse capital resolvemos arrendar uma terra, tornando-nos indepedentes. Fomos nos dedicar à plantação de algodão. Na época eu tinha 18 anos e o meu irmão, 15 anos. Somamos os esforços e trabalhamos arduamente durante 5 anos numa colônia distante da cidade. Mais tarde eu me casei e depois o meu irmão tambem se casou. Separamos a família e o trabalho. Meu irmão que sofrera desde a tenra idade estava feliz após o casamento, porém aos 39 anos veio a falecer, deixando quatro filhos. Atualmente esses quatro sobrinhos estão vivendo uma situação feliz, cada qual com sua família abençoada. Pelo ao menos isso me traz consolo e serenidade para a minha alma. O tempo foi passando e anos depois nos mudamos para São Paulo, onde abri uma loja de bazar. Os sofrimentos do início da imigração e os acontecimentos da época diluiram-se com o desenrolar dos anos, tornando-se uma saudosa recordação e consegui finalmente concretizar o antigo sonho de voltar a estudar numa escola. Estávamos no ano de 1975. Ja se passavam 41 anos desde a imigração; a família foi crescendo e tinhamos cinco filhos homens e vários netos. Todos eles viviam felizes embora em familias simples, gozando de boa saúde. Eu também já chegara aos 56 anos de idade e naquele ano resolvi inciar os meus estudos como estudante do curso noturno. Na época, tomei conhecimento da existência de cursos do Mobral instalados em igrejas de cada bairro como cursos de serviço social. Nesse ano entrei num desses cursos no terceiro ano primário e no segundo semestre cursei o quarto ano. Passei nas provas do final de ano e obtive o diploma de conclusão do curso. Com isso, no ano seguinte estudaria como aluno do ginásio. Em 1976 passei a cursar o primeiro ano do curso ginasial intensivo da Escola Santa Inês. A idade mínima era 16 anos. Em um ano conclui os estudos de dois anos. Havia vários alunos de mais idade entre os colegas, porém nenhum com a idade avançada como eu. Estava muito feliz em poder me comunicar com colegas, sem mesmo sentir a dirença da idade. Para chegar à escola jantava rapiddamente, após fechar as portas da loja. Quase na hora do início das aulas entrava na classe junto com o bando de jovens estudantes. Era um ambiente onde se podia estudar com o espírito radiante e rejuvenescido, sem sentir o complexo de inferioridade por causa da idade. Entre as disciplinas, a matemática era fácil de se entender, porém o difícil era o o portugues. A gramática parecia complicada mesmo para os brasileiros. Na ocasião da primeira prova de portugues, o professor ordenou que todos os alunos levantassem os braços e mostrassem as palmas das mãos. Eu não entendi por que motivo, mas depois descobri que alguns tinham as mãos cheia de letras miúdas escritas. O professor mandou esses alunos lavarem as mãos, mas não houve nenhuma repreeensão. Era apenas uma cola ingênua. Dessa forma, observando a astúcia dos alunos, me vi totalmente entrosado no meio dos colegas. Nas provas do final de junho para passagem para o próiximo ano fui aprovado em todas as matérias. Em Agosto comecei a frequentar o segundo grau. Durante as aulas havia quinze minutos de intervalo e nesse horário a lanchonete ficava lotada. Esse era o lugar de intercâmbio entre os alunos, ao mesmo tempo de namoro e confraternização dos jovens exaltados. Alguns alunos iam para a aula diretamente do trabalho e outros, não tendo tempo e recursos, chegavam apenas com refeições rápidas. Lembro-me que os meus filhos também levavam essa vida no tempo de estudantes. Eles saiam cedo de casa e entre o emprego e as aulas controlavam o precioso tempo. No segundo semestre tambem passei diretamente nos exames para a classe seguinte, sem a necessidade de me submeter à segunda época de provas. Fiz a matrícula para o teceiro ano e entrei de férias até o final de ano. Era 1977. Foi o ano em que cursei o terceiro e o quarto ano do ginásio. Posso dizer que sentia no canto da minha alma um certo orgulho e autoconfiança em poder passar os dias insubstituiveis, durante o dia como comerciante e à noite como estudante, sem precisar me envergonhar da minha idade. Embora restringindo o tempo dedicado ao comércio, o dia era bastante atarefado; parecia existir em mim algo me encorajando a cumprir o objetivo. O aproveitamento favorável e a saúde excelente, não perdendo dos jovens. No final do ano consegui obter o diploma de conclusão do curso ginasial. Estávamos em 1978. Esse foi o ano dos 70 anos da imigração japonesa. O jormal São Paulo Shimbun estava recrutando trabalhos sobre a esperiência de vida dos imigrantes. Eu concorri com o meu trabalho, aproveitando uma parte do tema sobre os estudos tardios, a que estava me dedicando. Como resultado não houve premiados, mas somente menção honrosa, na qual eu fui incluído. Nessa época alguns dos meus amigos me perguntavam para qual finalidade eu continuava estudando à noite, se havia algum retorno profissional. Isso é algo que qualquer um gostaria de saber. Eu dava respostas vagas, mas na verdade existia dentro de mim um fundamento na concepção da idéia. Na época da imigração eu fui obrigado a deixar os estudos no japão apenas com o primeiro ano do curso ginasial e vim para o Brasil para me dedicar a lavoura, sempre na linha de frente. No fundo da alma eu sentia certa nostalgia da escola. Ao me mudar para São Paulo fiquei com as noites livres, além de ter meio período de descanso aos sábados e aos domingos o dia todo. Lembro-me que quando trabalhava na pequena cidade do interior não descansava aos sábados e nem aos domingos e à noite trabalhava num bar. Comparando-se o tempo disponível das duas épocas havia uma diferença entre o céu e a terra. Eu pessoalmente tomei essa iniciativa simplesmente para dar cor à vida e tambem como uma forma de lazer, já que a minha esposa concordou com boa vontade. Portanto, votei aos bancos escolares com coração radiante. Quando passei para o curso colegial, como era de se esperar senti o nível subir de repente. Muitas vezes tive a ajuda dos filhos nos deveres escolares. Sabia que os pais acompanhavam os estudos dos filhos, mas eu nunca tinha ouvido dizer que os pais estudavam, tendo a ajuda dos filhos. Achei isso uma raridade muito divertida. Nesse ano também passei no primeiro ano e no segundo sem dificuldades. Fiquei feliz porque o esforço valeu a pena. Estávamos em 1979. Foi o último ano do meu curso colegial. Nesse ano tive a agradável notícia de que ao lado do colégio Santa Inês iriam construir o prédio do curso objetivo para cursinho e uma filial do colégio Pinheiros, com a previsão para início das aulas no próximo ano. Já me achava sonhando como aluno do cursinho para o vestibular. No mes de junho foram realizadas as últimas provas do curso colegial, nas quais fui aprovado em todas as matérias e assim obtive o diploma do colégio. Foi o resultado do meu esforço contínuo. Fiquei lisonjeado comigo mesmo por ter conseguido estudar sem interrupção e ao mesmo tempo já pensava na meta do próximo ano. Ano de 1980. Com ânimo e persistência continei levando uma vida não convencional, agora como estudante de cursinho misturando-me no meio de jovens de imensa vitalidade. Percebi nítida diferênça no grau de conhecimentos e capacidade intelectual entre os antigos colegas e os do cursinho, pois todos esses tinham como objetivo ingressarem numa faculdade. Só havia alunos excelentes. Os professores também eram de alto nível; as aulas eram ministradas usando-se métodos específicos e palestras calorosas. Frequentemente faziam-se exames simulados, cujos resultados eram esclarecidos com respostas adequadas. Existia pefeita integração e seriedade entre os educadores e os educados. Eu que tinha nível mais baixo de conhecimento me sentia deslocado nesse ambiente de intensa energia. Em todo o caso me inscrevi nas duas área de vestibular, uma para Letras da USP, na lingua Japonesa e a outra para o seviço social da FMU. Como resultado, fui aprovado na primeira fase das provas da USP e reprovado na segunda. Dias depois foi-me esclarecido que as notas tinham pesos diferentes para cada área como medicina, engenharia e letras. A medicina dava maior peso para ciências e biologia e a engenharia para matemática e física. Na área de letras o peso era maior na lingua portuguesa, principalmente redação. Eu não podia esperar ser aprovado, pois o meu ponto fraco era justamente essa redação. Fui aprovado na segunda opção da FMU. O meu nome apareceu em jornais na lista dos aprovados. Desde o início não tinha intenção de frequentar as aulas devido ao meu tra lho , mas como fui aprovado decidi fazer a matrícula e experimentei a realização de ser estudante de faculdade, apenas por uma semana. A minha experiência de estudos tardios chegou ao ponto final. Se eu consegui frequentar os cursos noturnos duante 5 anos foi graças ao apoio afetuoso da família e a sorte de ter tido saúde. Exatamente nessa época o propietário do prédio onde funcionava a minha loja pediu o imóvel, de forma que decidi cerrar as portas do comércio, mesmo porque eu ja havia me aposentado. Ainda nessa época, quando já levava a tranquila vida de aposentado tive a oportunidade de tabalhar no consulado do japão em São Paulo, como escrevente. Eu já passava então dos meus 70 anos de idade, quando pude sentir a alegria de poder aplicar o que aprendi durante os meus estudos noturnos, seja no conteúdo, seja na tradução. Foram seis anos e meio de trabalho demasiado bom para mim e na ocasião da minha demissão recebi do cônsul geral uma carta de agradecimento. Foi uma demissão honrosa com tratamento mais do que merecido. Dessa forma, passaram-se os 70 anos da minha vida no Brasil. O adolescente de 15 anos que era na época da imigração, agora já é um idoso de 85 anos. Rememorando a minha vida desde a chegada ao Brasil, o sofrimento do início parece ter cultivado em mim o espírito de tenacidade. O fato de ter trabalhado em pé diuturnamente contribuiu para forjar as pernas e quadris fortes. Se eu consegui no dia do meu aniversário de 83 anos participar e completar a caminhada pela manhã de 30 Km, acredito que foi devido ao treinamento feito habitualmente. Na vida atual remanescente que parece receber o reflexo do brilho de um crepúsculo vespertino, estou grato em poder contribuir em diversas áreas de atividades, aproveitando os poucos momentos que me restam até o sol se esconder. Redigido em Março de 2004. História
real: Sr. Kotaro Takahashi(Membro da Paróquia Anglicana
da Santa Cruz) SUKIYAKI Letra:
Hachidai Nakamura Sucesso
mundial em 1963 na voz de Kyu Sakamoto,
Ue o muite arukoo Quando
a noite vem Fico
a imaginar Que
eu poderia alcançar As
estrelas lá no céu Ue o muite arukoo E
na ilusão, vou mais além Perco
o olhar na imensidão Quando
a noite vem Fico
a imaginar Que
bom seria se eu tivesse Shiawase wa sora no ue ni Meu
amor perto de mim E
na ilusão, vivo a sonhar Que ainda é meu seu coração Nakinagara aruku Sigo
a caminhar Triste,
sem ninguém
(assobiando)
Sigo
sem saber Onde
está o meu bem Quando
a noite vem Fico
a imaginar Ue o muite arukoo Que
eu poderia alcançar As
estrelas lá no céu E
na ilusão, vou mais além Perco o olhar na imensidão .
|